O setor cafeeiro vietnamita iniciou 2026 com sinais robustos de crescimento, mas ainda enfrenta um gargalo estrutural: a baixa participação de produtos de maior valor agregado na pauta de exportação. Embora o país seja amplamente reconhecido como uma das maiores potências globais do café, a predominância das exportações de grãos verdes limita o potencial de receita e de posicionamento estratégico na cadeia global.
Exportações começam 2026 em alta
Segundo dados oficiais da Alfândega do Vietnã, em janeiro de 2026 o país exportou 224,3 mil toneladas de café, totalizando US$ 1,08 bilhão. O volume cresceu 22,6% em relação a dezembro de 2025 e 56,4% na comparação anual. Em termos de valor, o avanço foi de 14,1% frente ao mês anterior e de 39,5% sobre janeiro de 2025.
Os números confirmam que o café segue como um dos principais produtos agrícolas de exportação do Vietnã. Nos últimos anos, o setor não apenas expandiu área e produtividade, mas também iniciou um movimento de qualificação, com maior foco em qualidade, rastreabilidade e diversificação de produtos.
Valorização de identidade e diferenciação regional
Empresas regionais vêm investindo em diferenciação e storytelling para agregar valor. É o caso da B’RULE Coffee, da província de Quảng Trị, que posiciona seu café não apenas como produto agrícola, mas como expressão cultural da comunidade étnica Bru-Vân Kiều.
Segundo representantes da empresa, consumidores habituados ao café arábica reconhecem a qualidade e o perfil sensorial distinto do produto. Para novos consumidores, o café de Quảng Trị apresenta características diferentes dos tradicionais cafés de Đắk Lắk, reforçando a construção de identidade regional — um elemento central para competir em nichos de cafés especiais.
O desafio estrutural: dependência de grãos verdes
Apesar dos avanços, especialistas alertam que a maior parte do café vietnamita ainda é exportada como grão verde (café não torrado), o que implica menor valor agregado. A participação de produtos processados — como café torrado, moído, solúvel ou extratos — permanece relativamente modesta.
Para o setor, a questão central em 2026 não é apenas repetir taxas de crescimento expressivas, mas sustentar um ciclo de expansão consistente no médio e longo prazo. Isso exige fortalecimento da capacidade industrial, financeira e logística.
Pressão regulatória e exigências europeias
A crescente exigência de mercados como a União Europeia — especialmente em relação à rastreabilidade e às regras de “desmatamento zero” — impõe novos padrões operacionais. As empresas precisam digitalizar mapas agrícolas, estruturar cadeias rastreáveis e fortalecer a integração com produtores.
Cada lote exportado tende a ser cada vez mais auditável, desde a fazenda até o embarque. Nesse contexto, investir apenas em volume deixa de ser suficiente; conformidade regulatória e transparência tornam-se fatores críticos de competitividade.
Infraestrutura e financiamento: gargalos críticos
Um dos motivos históricos para a exportação de grãos verdes é a necessidade de giro rápido de capital. A ausência de parques industriais especializados, sistemas de armazenagem adequados, estoques reguladores e infraestrutura logística integrada reduz a capacidade de retenção estratégica da produção.
Sem armazéns alfandegados e logística eficiente no Tây Nguyên — principal região produtora —, muitas empresas são pressionadas a vender rapidamente para cumprir compromissos financeiros com agricultores.
Além disso, o setor enfrenta escassez de crédito de longo prazo para investimentos em processamento profundo. A dependência de financiamento de curto prazo limita projetos industriais, modernização tecnológica e construção de marcas internacionais.
O papel estratégico dos acordos de livre comércio
Os acordos de livre comércio (FTAs) representam uma alavanca relevante para a transformação estrutural do setor. A redução tarifária, a harmonização de padrões técnicos e a facilitação comercial ampliam o acesso a mercados estratégicos como Japão, União Europeia, Austrália e China.
Contudo, para aproveitar plenamente esses instrumentos, o Vietnã precisa evoluir de fornecedor de matéria-prima para protagonista na cadeia global de valor do café. Isso implica ampliar a oferta de produtos industrializados, fortalecer marcas nacionais e consolidar reputação em segmentos premium.
Conclusão
O Vietnã já ocupa posição de destaque no comércio internacional de café em termos de volume. O desafio da próxima década será converter essa liderança quantitativa em supremacia qualitativa.
Sem expansão do processamento profundo, fortalecimento logístico e financiamento estruturado, o país corre o risco de permanecer dependente de margens estreitas associadas à exportação de grãos verdes.
A transição para um modelo baseado em valor agregado, rastreabilidade e diferenciação regional não é apenas desejável — é estratégica para garantir crescimento sustentável entre 2026 e 2030 e consolidar o Vietnã como uma potência cafeeira completa, não apenas em produção, mas em geração de valor.
