O mercado global de café passou por uma correção significativa no final de 2025, antes de se recuperar nos primeiros dias de 2026. Esse movimento é claramente refletido no Relatório do Mercado de Café de dezembro da Organização Internacional do Café (ICO), divulgado em 12 de janeiro de 2026.
Segundo a ICO, o “arrefecimento” do mercado no fim do ano decorreu de uma melhora nas expectativas de equilíbrio entre oferta e demanda globais, combinada com fatores de política, financeiros e de sentimento especulativo. No entanto, os níveis historicamente baixos de estoques continuam tornando o mercado extremamente sensível a riscos climáticos e de oferta.
Preços do café caem de forma generalizada em dezembro
O preço médio mensal do Índice Composto da ICO (I-CIP) em dezembro de 2025 caiu 7,8% em relação a novembro, para 304,68 centavos de dólar por libra.
O Robusta registrou a maior queda:
O preço médio do Robusta caiu para 190,53 centavos/lb, recuo de 11,3%, ficando abaixo de US$ 2/lb pela primeira vez desde agosto.
O indicador de Londres para Robusta (preços médios dos contratos de fevereiro e março) caiu 11,6%, para 178,87 centavos/lb.
Os grupos de Arábica também sofreram pressão, embora em menor intensidade:
Colombian Milds: 382,32 centavos/lb, queda de 6,5%
Other Milds: 381,14 centavos/lb, queda de 7,1%
Brazilian Naturals: 355,38 centavos/lb, queda de 6,5%
Indicador Arábica de Nova York: 347,71 centavos/lb, queda de 6,9%
A volatilidade mensal permaneceu elevada, em 9,6%, embora inferior aos 11,1% registrados em novembro. Em dezembro, o I-CIP oscilou entre a máxima de 326,04 centavos/lb (1º/12) e a mínima de 283,56 centavos/lb (19/12).
Fatores de política e oferta e demanda impulsionaram a queda
De acordo com a ICO, a tendência de baixa já vinha se formando, refletindo expectativas mais positivas quanto ao equilíbrio global entre oferta e demanda. No entanto, a queda foi acelerada por diversos fatores específicos.
- Políticas comerciais reduziram a incerteza do mercado
Algumas decisões de política aliviaram a pressão psicológica sobre o mercado de café:
A União Europeia continuou adiando a implementação do Regulamento Antidesmatamento (EUDR).
Os Estados Unidos cancelaram medidas de tarifas retaliatórias, incluindo tarifas sobre o café e tarifas específicas contra o Brasil.
Essas decisões eliminaram parte dos riscos políticos que haviam mantido o mercado cauteloso nos meses anteriores.
- Expectativas de oferta revisadas para cima
Do ponto de vista fundamental, as estimativas oficiais para a safra brasileira de café 2025/26 foram revisadas para cima, juntamente com um leve aumento na projeção da produção global de café pelo USDA.
“Embora os ajustes não sejam grandes, eles reforçam a narrativa geral de melhora nas perspectivas de oferta”, destacou o relatório da ICO.
- Fatores financeiros e especulativos
A desvalorização do real brasileiro frente ao dólar estimulou vendas por parte de produtores e exportadores do Brasil.
Na ICE de Nova York, a posição líquida comprada (net long) dos fundos especulativos não comerciais caiu significativamente, de 34.747 contratos para 23.673 contratos nos 14 dias até 23 de dezembro.
Preços se recuperam no fim de dezembro e início de 2026
A queda não se estendeu ao início do novo ano. Nos últimos dias de dezembro e nos primeiros dias de janeiro de 2026, os preços do café se recuperaram de forma relevante.
O I-CIP voltou a superar o patamar de 300 centavos/lb por três sessões consecutivas.
Alcançou um pico de curto prazo de 307,11 centavos/lb em 7 de janeiro de 2026.
Segundo a ICO, essa recuperação foi impulsionada por dois fatores principais:
Chuvas abaixo do esperado no Brasil, levando a uma revisão de parte das expectativas de melhora da safra.
Enchentes severas na Indonésia, que podem reduzir em até 15% as exportações de café do país na safra 2025/26.
Estoques globais baixos tornam o mercado “excessivamente sensível”
A ICO enfatiza que a forte reação dos preços do café atualmente decorre da acentuada redução dos estoques globais, após três anos consecutivos de déficit de produção.
Entre as safras 2021/22 e 2024/25, o mercado registrou um déficit acumulado de quase 18 milhões de sacas.
Os estoques de café para consumo na Europa caíram drasticamente, de 15,04 milhões de sacas no início da safra 2022/23 para 7,86 milhões de sacas em 31 de outubro de 2025.
Os estoques de Arábica certificados pela ICE nos Estados Unidos caíram de 0,91 milhão de sacas em janeiro de 2025 para apenas 0,48 milhão de sacas em dezembro de 2025.
Nesse contexto, qualquer risco climático ou interrupção na oferta pode rapidamente amplificar a volatilidade dos preços.
Exportações globais crescem, com forte recuperação do Robusta
No comércio internacional, as exportações globais de café mostram sinais de recuperação:
Nos dois primeiros meses da safra 2025/26 (outubro–novembro), as exportações globais de café aumentaram 3,8%, totalizando 10,473 milhões de sacas.
O Robusta cresceu expressivos 21,8%, para 4,11 milhões de sacas.
O Arábica recuou 5,2%, para 6,363 milhões de sacas.
Por grupo:
Other Milds: +19,8%, para 1,505 milhão de sacas
Brazilian Naturals: -13,8%, para 3,54 milhões de sacas
Colombian Milds: -2,5%, para 1,318 milhão de sacas
A evolução dos preços do café em dezembro de 2025 e no início de 2026 mostra que o mercado opera em um equilíbrio frágil. Embora as perspectivas de oferta tenham melhorado, os baixos estoques globais continuam sendo um fator estrutural que torna os preços do café altamente suscetíveis a choques climáticos e geopolíticos.
No curto prazo, o mercado tende a permanecer volátil, especialmente à medida que as condições climáticas no Brasil e na Indonésia, bem como o ritmo das exportações do Vietnã, se tornam o foco principal dos agentes de mercado.
