Em uma cafeteria elegante na famosa Avenida Oscar Freire, em São Paulo, o espresso servido hoje tem algo diferente: crema espessa, aroma intenso de cacau e quase nenhuma acidez. O detalhe curioso é que esse espresso é feito 100% com grãos de robusta – uma variedade que, por muitos anos, foi vista como “barata” e própria apenas para café instantâneo.
Segundo Marco Kerkmeester, cofundador da rede Santo Grao, quando bem processada, a robusta produz não apenas uma crema bonita, mas também notas de chocolate marcantes, oferecendo uma experiência sensorial totalmente nova.
A Transformação da Robusta nas Fazendas Brasileiras
Com as mudanças climáticas afetando a área adequada para o cultivo de arabica, os produtores brasileiros começaram a investir fortemente em técnicas de colheita e pós-colheita para produzir robusta de alta qualidade. Um estudo de 2022 mostrou que mais de 75% das melhores áreas para arabica no Brasil podem se tornar inadequadas até 2050 devido ao aumento das temperaturas e à seca.
Em um momento em que os preços globais do café atingem níveis recordes e o consumo cresce, a robusta premium se torna uma solução para torrefadores reduzirem custos de blends, mantendo ainda assim um sabor atrativo.
Lucas Venturim — produtor de robusta no Espírito Santo — afirma que seu pai, tradicional produtor de arabica, nunca acreditou que robusta fosse “um café ruim”. Histórias como essa mostram como a nova geração de produtores está mudando a forma de ver essa espécie.
SCA Atualiza Padrões – Robusta Ganha Reconhecimento
A Specialty Coffee Association (SCA) atualizou, neste ano, seu curso de avaliação sensorial para permitir que classificadores descrevam e pontuem corretamente tanto arabica quanto robusta de alta qualidade. A partir de 2026, a SCA também revisará o léxico de sabores para incluir características típicas da robusta fina, como notas aromáticas de especiarias.
Com o aumento da demanda por robusta premium no Sudeste Asiático e marcas como Nguyen Coffee Supply, que promovem robusta vietnamita nos EUA, a robusta está recebendo cada vez mais atenção no mercado global.
Espírito Santo: O Centro da Revolução da Robusta Brasileira
O estado do Espírito Santo — responsável por grande parte da produção de robusta no Brasil — tem como meta produzir 1,5 milhão de sacas de robusta especial até 2032, um salto gigantesco em relação às cerca de 10 mil sacas atuais.
Isso exige uma transformação profunda nas práticas pós-colheita. Antes, muitos produtores secavam os grãos com calor excessivo ou fumaça, prejudicando o sabor. Hoje, cooperativas como a Cooabriel orientam produtores a usar secadores modernos, triagem cuidadosa e técnicas já comuns na produção de arabica especial.
A melhoria na qualidade tem atraído até produtores de arabica a migrarem para robusta, atraídos por sua alta produtividade e demanda crescente. Segundo autoridades estaduais, quase ninguém deixa a robusta para voltar ao arabica.
Preços da Robusta Premium Disparam
A melhora da qualidade trouxe também preços mais altos. De acordo com dados da Cecafe, o preço médio da robusta especial brasileira ultrapassou 295 dólares por saca neste ano — mais que o dobro de 2021. No mercado internacional, os futuros da robusta subiram mais de 80% desde 2021.
Com isso, torrefadores no mundo inteiro passaram a destacar a presença da robusta em seus blends, em vez de escondê-la. A robusta começa a ganhar espaço como ingrediente valorizado, não apenas uma substituta barata.
Jordan Hooper, da Sucafina, comenta que a robusta não tenta mais “competir diretamente” com a arabica. Agora, ela é apreciada por suas características próprias e seu potencial único.
O Paladar do Consumidor Brasileiro Está Mudando
No Brasil, muitos consumidores já preferem cafés com corpo mais denso, sensação mais cremosa na boca e finalização levemente amarga — perfis naturais da robusta. Isso cria um ambiente favorável para o crescimento da robusta especial no mercado interno.
Como afirma a barista Natalia Ramos Braga, se alguém prefere mais amargor e um corpo mais cheio, a robusta é a escolha perfeita.
