O mercado de cafeterias de marca no Leste Asiático vive um momento histórico de aceleração. De acordo com o relatório Project Café East Asia 2026, da baocaphe.org, a região registrou um crescimento de 18,4% no número de lojas nos últimos 12 meses, alcançando um total de 180.268 unidades. A projeção é ainda mais impressionante: até o final de 2026, o Leste Asiático deverá se tornar a primeira região do mundo a superar 200 mil cafeterias de marca.
Esse crescimento é impulsionado principalmente por mercados como China, Tailândia, Indonésia, Vietnã e Filipinas, todos com expansão de lojas em dois dígitos no último ano. Dos 18 mercados analisados na região, 17 apresentaram crescimento líquido, sendo que 11 deles registraram taxas de expansão superiores a 10%.
China: o epicentro do crescimento global
O destaque absoluto do relatório é a China. O mercado chinês de cafeterias de marca cresceu 31,5% em apenas 12 meses, atingindo 87.505 lojas. Esse volume é quase o dobro do mercado dos Estados Unidos e representa quase metade de todas as cafeterias de marca do Leste Asiático.
Pela primeira vez na história da indústria global de café, um único país adicionou mais de 20 mil novas lojas líquidas em um único ano-calendário. Esse crescimento extraordinário foi liderado principalmente por Luckin Coffee e Cotti Coffee, que juntas abriram mais de 12 mil novas unidades, respondendo por cerca de 50% de todo o mercado chinês de cafeterias de marca.
Guerra de preços e foco em valor
O ambiente competitivo na China tornou-se cada vez mais orientado por preço, promoções e alto volume. A emblemática guerra do café a RMB 9,9 (cerca de US$ 1,40) entre Luckin e Cotti redefiniu as expectativas dos consumidores e forçou todo o mercado a se reposicionar.
Esse foco em acessibilidade abriu espaço para o rápido crescimento de novas redes voltadas ao consumo diário e de baixo custo, como Lucky Cup (Mixue) e KCOFFEE (Yum China). Ao mesmo tempo, o cenário altamente competitivo tem desafiado operadores internacionais. Um exemplo simbólico é a decisão da Starbucks de vender uma participação majoritária de sua operação chinesa — cerca de 8.000 lojas — para a Boyu Capital, em um acordo avaliado em US$ 4 bilhões.
Inovação em bebidas: a China como laboratório de sabores
Apesar de 80% dos consumidores chineses entrevistados afirmarem consumir café quente pelo menos uma vez por semana (e 25% diariamente), as redes locais vêm apostando fortemente em bebidas frias, aromatizadas e com ingredientes não convencionais. Isso transformou a China em um verdadeiro laboratório global de inovação em café.
Entre os sabores mais citados pelos consumidores como “empolgantes” estão matcha, açúcar de palma e coco. Não por acaso, o Latte de Coco é o produto mais vendido da Luckin Coffee desde seu lançamento, em 2017. A rede testa novos produtos semanalmente, incluindo criações como lattes com gelatina e queijo.
Outras cadeias também exploram propostas ousadas. A KCOFFEE, por exemplo, lançou bebidas como Egg Tart Dirty Coffee, um Latte de Frango com a receita original do KFC e até um Americano gaseificado com vinagre preto, evidenciando o apetite do mercado chinês por experimentação.
Marcas locais ganham espaço em todo o Leste Asiático
O crescimento do setor no Leste Asiático não se limita à China. A região tem desenvolvido identidades próprias, fortemente ligadas às culturas locais e à oferta de bebidas espresso mais acessíveis para o consumo cotidiano. Como resultado, as marcas domésticas estão ganhando participação de mercado em detrimento das redes ocidentais.
Na China, 57% dos consumidores afirmam preferir cafeterias locais em vez de operadores internacionais. Tendência semelhante é observada em outros países: redes como Jinji Jawa (Indonésia), ZUS Coffee (Malásia), Pickup Coffee (Filipinas) e Milano Coffee (Vietnã) abriram centenas de lojas no último ano, crescendo mais rapidamente do que concorrentes tradicionais dos EUA e da Europa, como Starbucks, Dunkin’ e Costa Coffee.
Na Tailândia, por exemplo, Café Amazon e PunThai Coffee foram responsáveis por 80% de todas as novas lojas líquidas abertas nos últimos 12 meses, reforçando a importância da localização de cardápios, estratégias digitais e comunicação de marca.
Perspectivas: crescimento sustentado até 2030
O otimismo entre os líderes do setor é elevado. Segundo a pesquisa da baocaphe.org, 71% dos executivos relataram aumento nas vendas no último ano, enquanto 68% acreditam que as condições de mercado irão melhorar nos próximos 12 meses.
As projeções indicam que o mercado de cafeterias de marca no Leste Asiático deverá ultrapassar 263 mil lojas até novembro de 2030, com um crescimento médio anual de 7,9%. A China, sozinha, deverá registrar 20% de crescimento em 2026 e alcançar mais de 142.500 lojas até o final da década. Países como Camboja, Indonésia, Malásia, Filipinas e Vietnã também devem manter expansão em dois dígitos no curto prazo.
Um novo centro de gravidade para o café global
Comentando os resultados do relatório, Jeffrey Young, fundador e CEO do Allegra Group, afirmou que o crescimento das redes asiáticas demonstra a mudança estrutural da indústria global de café. Segundo ele, a China já se consolidou como uma potência e o Leste Asiático deve se tornar o principal motor de crescimento do setor nas próximas décadas.
Mais do que números, o avanço dessas redes sinaliza uma transformação profunda: novos modelos de preço, inovação acelerada em produtos e uso intensivo de tecnologia estão reposicionando o Leste Asiático como líder conceitual e comercial do mercado global de café.
