Preços do café atingem máximas históricas
O mercado global de café está passando por uma das maiores altas de preços dos últimos anos. Ambos os principais tipos de café — Arabica e Robusta — atingiram níveis recordes.
O contrato Arabica de dezembro de 2025 (KCZ25) subiu de forma constante, chegando a US$ 4,24 por libra em meados de setembro.
O Robusta de novembro de 2025 (RMX25) também alcançou o nível mais alto em quase 50 anos.
O principal motivo é a queda acentuada dos estoques monitorados pela Bolsa Intercontinental (ICE) — considerada o “termômetro” do abastecimento mundial. Em 7 de outubro de 2025:
Os estoques de Arabica caíram para 534.665 sacas, o menor nível em 18 meses.
Os estoques de Robusta ficaram em 6.237 lotes, o menor patamar em 2,5 meses.
Esses números refletem uma escassez física grave de café disponível.
A “tempestade perfeita” por trás da alta dos preços
O aumento não aconteceu de repente; ele é resultado de anos de choques sucessivos na cadeia de suprimentos:
2021: Uma forte geada no Brasil — maior produtor mundial de Arabica — destruiu milhões de pés de café.
Pós-pandemia: O aumento dos custos de transporte, gargalos logísticos e conflitos no Mar Vermelho dificultaram o embarque de Robusta da Ásia.
2023–2024: Condições climáticas extremas — secas, ondas de calor e geadas no Brasil; secas e chuvas intensas no Vietnã — reduziram drasticamente a colheita. No Vietnã, maior exportador de Robusta do mundo, a safra 2023/24 caiu cerca de 20%.
Início de 2025: Os Estados Unidos impuseram uma tarifa de 50% sobre o café brasileiro, reduzindo o abastecimento e pressionando ainda mais os estoques da ICE.
Esses fatores combinados criaram a “tempestade perfeita” que empurrou os preços do café para níveis históricos.
Impactos em toda a cadeia produtiva
Produtores de café:
Os preços mais altos podem aumentar a renda, mas muitos agricultores não têm café suficiente para vender devido à queda na produção e ao aumento dos custos de fertilizantes e mão de obra.
Comerciantes e torrefadores:
A volatilidade do mercado elevou os riscos financeiros e os custos operacionais. As torrefadoras estão sendo obrigadas a aumentar os preços para compensar o encarecimento do grão verde.
Consumidores:
Os preços do café nas cafeterias e supermercados subiram em todo o mundo. Grandes redes como Tim Hortons e Starbucks já reajustaram seus preços, enquanto torrefadores menores enfrentam dificuldades em absorver os custos sem perder clientes.
Grandes empresas: ganhadores e perdedores
Keurig Dr Pepper (EUA): A alta do grão reduziu margens e derrubou ações da empresa.
Starbucks: Fortemente impactada pelas tarifas sobre o café brasileiro, a empresa busca diversificar o fornecimento com investimentos na América Central.
J.M. Smucker (Folgers, Café Bustelo): Aumentou preços, mas as margens de lucro caíram 3%.
Nestlé (Nescafé, Nespresso): Graças à forte estratégia de precificação, registrou crescimento orgânico de 5,1% no início de 2025.
JDE Peet’s (Douwe Egberts, Jacobs): Obteve alta de 21,5% na receita no primeiro semestre de 2025, impulsionada pelos reajustes de preços, mantendo rentabilidade positiva.
Causas profundas: clima e políticas
O café é uma cultura altamente sensível às variações climáticas.
Secas, geadas, temperaturas extremas e chuvas irregulares estão reduzindo a produtividade e afetando a qualidade dos grãos.
Cientistas alertam que até 2050, as áreas adequadas ao cultivo de café poderão diminuir até 50%.
Além disso, as políticas comerciais e ambientais também influenciam fortemente o mercado:
A tarifa de 50% dos EUA sobre o café brasileiro está alterando fluxos comerciais.
O Regulamento de Desmatamento da União Europeia (EUDR) exige rastreabilidade e sustentabilidade, elevando custos e pressionando ainda mais a oferta.
Perspectivas: volatilidade continuará
Curto prazo (6 a 12 meses):
Os preços devem permanecer altos e voláteis devido ao clima imprevisível no Brasil e no Vietnã.
O fenômeno La Niña, previsto para o fim de 2025, pode causar seca severa no Brasil, afetando a safra de 2026/27.
Longo prazo (a partir de 2026):
A demanda global por café segue crescendo, especialmente na China, Índia e Oriente Médio.
Condições climáticas extremas e regulações ambientais rígidas manterão o mercado instável.
Projeções indicam que o mercado mundial de café pode alcançar US$ 174 bilhões até 2030.
Caminhos para o futuro do setor
Para enfrentar esse cenário desafiador, empresas e produtores devem:
Diversificar as origens de fornecimento e reduzir dependência de regiões vulneráveis.
Investir em agricultura sustentável e variedades mais resistentes ao calor e à seca.
Adotar tecnologias de rastreabilidade e transparência na cadeia de suprimentos.
Valorizar o café especial (specialty coffee) como forma de aumentar o valor agregado e reduzir a dependência dos preços de mercado.
Uma nova era de volatilidade e adaptação
A atual disparada dos preços é um alerta para toda a indústria cafeeira global. Estoques em queda, clima instável e políticas comerciais restritivas estão redesenhando o mercado.
De produtores a consumidores, todos os elos da cadeia precisam se adaptar — com tecnologia, sustentabilidade e planejamento — para sobreviver nesta nova era de incerteza e transformação.
